As estradas do Brasil estão entre as piores da América do Sul, segundo uma pesquisa que mostra ter o nosso País apenas 11% de suas rodovias asfaltadas, ficando atrás do Uruguai, Suriname, Argentina e Venezuela no ranking da malha rodoviária ponderada pela superfície terrestre e população.Para se ter uma idéia clara do problema, é preciso fazer esta comparação: numa extensão de 1,7 milhão de quilômetros de estradas, em nosso País, apenas 196 mil quilômetros são asfaltados.
E mesmo nesses trechos cobertos por asfalto ou cimento a manutenção é muito ruim. Hoje, essa malha atende a uma frota de veículos da ordem de 45 milhões de unidades. Não admira que tenhamos registrado, no ano passado, um total de 109.268 acidentes, com 6.116 mortos e 66.061 feridos.
A deficiência de nossas rodovias até seria aceitável, se houvesse, em contrapartida, uma boa malha ferroviária, unindo os diferentes pontos do País. Isso, porém, jamais existiu. E até mesmo muitos trilhos implantados por capitalistas ingleses no século 19, com o objetivo de consolidar empréstimos bancários (mais do que para atender às necessidades de transporte por terra), foram abandonados, a partir da implantação e posterior desenvolvimento da indústria automobilística.
E nem adianta falar do aproveitamento dos rios, que só tem grande importância econômica na Região Amazônica. O aproveitamento do São Francisco como estrada fluvial nunca se consolidou. Optou-se pela construção das grandes barragens e o desmonte do pequeno trecho ferroviário que chegou a ser construído paralelamente ao seu curso pernambucano, em Petrolândia, para superar o obstáculo das corredeiras.
A partir de 1980, sem que saíssem do papel as obras anunciadas sucessivamente para recuperar velhas ferrovias e alguns portos fluviais, os investimentos em obras rodoviárias despencaram. As estradas brasileiras estão, hoje, em situação de calamidade, ao mesmo tempo em que o país passa a figurar nas estatísticas internacionais como campeão mundial de acidentes de trânsito. Só no primeiro semestre de 2007 o número de vítimas nas rodovias foi de 3.230 pessoas, 10% maior do que o verificado em igual período do ano passado. Esse número equivaleria a mais de 16 acidentes aéreos como o que aconteceu recentemente em Congonhas.
Ninguém espera que a situação melhore a curto prazo. Com relação ao mês de julho último, dados preliminares falam em 686 pessoas mortas, somente nas rodovias federais, um aumento de 15,49% em relação a 2006. O governo não ignora o problema, tanto que previu R$ 58 bilhões para a recuperação de rodovias no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e estuda a possibilidade de concessões a grupos interessados na administração das vias mais movimentadas, para financiamento de parcerias público-privadas, sobretudo no Centro-Sul.
Duas revistas de circulação nacional, ambas editadas em São Paulo, trataram do assunto, na semana passada. Os títulos são parecidos. Veja fala de Um país no buraco, enquanto IstoÉ diz que o nosso é O país do buraco.
Os textos, porém, são diferentes. A primeira, numa reportagem de 14 páginas, refere-se aos prejuízos causados pela falta de cuidados com toda a nossa infra-estrutura, citando as “estradas esburacadas como se tivessem sido bombardeadas, aeroportos mal equipados, com terminais insuficientes e pistas inseguras para aviões de grande porte, portos reduzidos e sem maquinário suficiente para escoar a produção agrícola e industrial, ferrovias que são verdadeiras sucatas, setor energético à beira de um novo apagão”.
Já a segunda revista compara o tipo de pavimentação usado nas ruas do Brasil (e não somente nas rodovias) com o asfalto que se utiliza em países como os Estados Unidos. Baseada na opinião da coordenadora do Laboratório de Misturas Asfálticas da Universidade do Rio de Janeiro, conclui que o asfalto produzido em nosso País merece confiança. A diferença está na mistura com brita, que nem sempre é bem feita.
E afirma que, além da falta de manutenção, “pavimentos ruins são tão comuns no Brasil que os carros europeus e americanos fabricados para o mercado brasileiro geralmente são tropicalizados”, o que significa dizer, adaptados para rodar em vias urbanas e estradas em condições precárias.
Fonte: Jornal do Commercio/PE